terça-feira, 10 de agosto de 2010

Muda'

Semanas se passaram... Não consigo mais falar.
Os ganidos são vazios... Nenhum som sai direito. Nada tem um significado.
Já não sei mais o que fazer... Hoje vou ao curandeiro da aldeia da matilha dos caninos que é como se chamam estes lobos que aqui se reuniram... Os caninos.

- Olá bela dama... Sente-se melhor? - Rosnei para ele. Que mania irritante essa de me chamar assim! - Não faça isso. Sabe que agora não há como me dizer seu nome para eu parar de lhe chamar assim. De qualquer forma eu não pararia então não há por que rosnar.

Rosnei mais uma... duas... três sem parar. Ele não podia me dizer o que eu deveria ou não fazer. Embora não pudesse falar eu poderia mantê-lo quieto ao máximo.

- Venha bela dama... O curandeiro Silver vai vê-la.

Ele me levou por uma clareira de lindas cores até um grande e velho salgueiro. Suas raízes para fora da terra formando uma espécie de caverna húmida. O mesmo local em que acordei...

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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Silêncio'

Orelhas para trás.... Corpo abaixado... Tensão e leveza... Farejo minha presa... E corro.
 
Corro o mais rápido que posso. Apenas corro. Sinto minhas patas saindo e se posicionando no chão. As pernas se flexionando. O arfar rápido de minha respiração falando a mim que eu já correra demais por enquanto. Não pararia agora. Estava tão perto... Não acreditava que antes achara tão difícil, impossível até, fazer isso. Caçar. E não eram bebês...

Cheguei próximo. Dei mais tensão nos músculos para saltar. Saltei. Algo me atingiu momentos depois... Tentei me agarrar ao cervo. Logo fui atingida novamente. Enxerguei em vermelho. E cai...
 
Acordei tempos depois com ruidos que não entendia. Logo eles tomaram som. Quando abri os olhos havia uma mancha que quando tomou forma percebi ser o lobo. Ele me chamava. Mesmo sem ele saber o meu nome sabia que ele se referia a mim pois falava o irritante apelido que me dera quando nos conhecemos.

- Bela dama...?! Oh! Você acordou.Que bom. Já estava preocupado que os ferimentos fossem graves.

Ferimentos? Que ferimentos? E porque me sinto tão letárgica...?

- Fico tão feliz que você esteja bem! Quebrou algumas costelas... Mas eu já imobilizei. Você vai ficar bem. Tome. Eu peguei para você... - Ele me estendeu um cervo.

Fui atingida? Ai... acho que não me lembro direito disso. Eu disse que não sabia fazer isso. Você não devia ter insistido.

- Coma... vai lhe fazer bem comer algo. Faz muito tempo que está dormindo.
 
Quanto tempo?! O que aconteceu exatamente? Olhei para baixo... Estava com o tronco imobilizado por longas folhas curativas. Ai... isso é um horror... Acho que vou ficar meio inútil nas próximas semanas. E então... Quanto tampo?

- Vamos... quando terminar vou lhe mostrar o lugar.

Eu olhei ao redor pela primeira vez de que acordei. Estava preocupada com outras coisas até o momento. Era uma caverna bem ampla... não, não acho que era uma caverna. Era mais um... um tronco de arvore oco por dentro? Que estranho.

Onde estamos? Que lugar é esse? E pela ultima vez... Quanto tempo fiquei dormindo?
 
Ele me olhava de um jeito estranho... Como se esperasse eu dizer alguma coisa. Mas o que se eu já estava falando?

- Não vai falar nada? - Dei um gemidinho baixo. Ele era o que? Surdo? Isso o perturbou. - Qual é o problema? As amarras estão apertadas demais? Está com dor? O que foi?

Qual é o seu problema? Não vai me responder as minhas perguntas? E então notei. Eu não estava de fato falando. Eu apenas havia pensado tudo o que 'disse' para ele. Mas por que não consegui falar até agora? Meu gemido desta vez foi de puro desespero.

- Qual o problema?! O que foi? Fale bela dama! Está me deixando preocupado.

A mim também... a mim também... Socorro! Por favor. Alguém tem de me ouvir!

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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O caminho entre a relva'

- Por aqui bela dama - Ele abriu um espaço entre as folhagens. - Nessa direção. Consegue sentir o cheiro?

- Qual deles? O de orvalho ou o de flor de macieira? - Resmunguei com sarcasmo. Meu humor andava péssimo nos últimos dias por causa da caminhada sem fim e do fato dele viver me irritando. Sem falar da fome que eu tinha no momento. - Ou será que é o cheiro de café da manhã que eu não estou sentindo?

Ele suspirou. Ficava angustiado quando eu reclamava. Por razões que eu desconhecia. Ele parecia um tanto protetor.

- Estamos quase chegando lá. Me desculpe... eu deveria arranjar algo para você comer. Mas estamos tão perto que eu não consigo me conter e parar para fazer isso. - Resmunguei ao ouvir meu estômago roncando. Ai... E ele certamente também ouviu pelo que disse a seguir. - Vamos procurar alguns cervos e quando estiver satisfeita continuaremos.

Meu estômago embrulhou com esse comentário. E com a fome a sensação se tornava pior ainda.

- Vamos. - Disse ele me empurrando de leve com a cabeça. Quando não me mexi ele perguntou. - Qual o problema? Pensei que estivesse com fome...

- E estou... só que...

- Só que...? - Ele estava com uma curiosidade sincera agora. E para mim um tanto mórbida na verdade. - Fale.

- Eu sei caçar apenas filhotes. Não fui ensinada a caçar animais maiores. Essa foi uma das razões para eu e meu irmão termos saido a procura de uma matilha.

Ele não riu como esperava. Pelo contrario. Deu um sorriso triste. E mais um leve empurrão. Dessa vez como não esperava pelo movimento forte demais para a normal leveza e gentileza dele quando comigo acabei cedendo a pressão. Cambaleei alguns passos.

- Não se preocupe... Eu te ensino. Sinto muito.

Ah! Claro... Ele entendeu o porque de eu ter dito isso a ele. Contei a tempos sobre meus pais. Ele não iria rir disso. Muito gentil lembrei-me. Gentil embora irritante. Eu não deveria ser tão dura com ele. Não deveria mesmo. Tentaria ser mais compreensiva. Tentar ao menos prometi a mim mesma. O que não significa fazer no entanto. Umas poucas tentativas. Se eu conseguisse melhor.

- Obrigada...

- Disponha sempre, Bela Dama. - Ser gentil... ser gentil... lembrei-me.

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